terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sobreviventes do Holocausto


Quem morava na pequena cidade de Warkowicze (antes Polônia, atualmente Ucrâ­­nia) sofreu duplamente: primeiro em 1939 com a ocupação soviética e depois em 1941 com a chegada dos alemães. Bunia Finkiel, então com 17 anos, estava nessa encruzilhada. Preparava-se para completar os dois últimos anos do ginásio, em Kiev (cidade onde havia ensino mais avançado, próxima a Warkowicze), quando os russos entraram com tanques de guerra, quebrando todo o calçamento. “Nunca tínhamos visto aquilo. Nossa vida mudou imediatamente.”
A língua hebraica foi proibida de ser usada e ela teve de terminar os estudos em escola russa. “Passei minha juventude entre guerras e medos. Os russos também não foram fáceis, pois sequestravam na calada da noite quem eles achavam que tinha de ser eliminado”, conta.
O bombardeio sobre Kiev, em 1941, foi o anúncio de que o maior inimigo, os alemães, batia à porta. Ao lado dos vizinhos, Bunia se colocou em uma fila para testemunhar a entrada dos nazistas que ocupavam o espaço antes dominado pelos soviéticos. Queria ver a tropa passar. Coisa de menina ingênua. Dois soldados – um ruivo e alto, descreve ela – pararam na frente dela e dos amigos e perguntaram quem eram. Um respondeu: ‘tcheco’. O outro disse: ‘ucraniano’. E, quando apontaram para Bunia, sua amiga disse, com o dedo em riste: “Ela é judia”. “Vejo sempre esse soldado na minha frente. Ele me disse que, se eu não fosse de origem judaica, seria bonita. Tirou uma faca e me colocou aqui [perto do pescoço]. O outro o segurou. Imagine como eu me senti.” A “amiga”, ela nunca mais viu.
Tão logo os alemães ocuparam o território, Bunia e vários outros jovens foram arrancados de casa para trabalhar à força. Começava às 6 da manhã e terminava às 18 horas (à noite voltavam para casa). Era preciso levar uma caneca junto porque ela era a garantia de uma porção de líquido fervido no almoço em um barril de petróleo. Quem pegava a folha do repolho era o premiado do dia. Es­­ses jovens ajudaram a asfaltar a estrada principal que ia do Norte ao Sul da Polônia e fazia conexão com a Rússia (os alemães careciam de boas estradas para passar com os equipamentos de guerra). “Minha irmã tinha de varrer a rua e, eu, espalhar as pedrinhas. O caminhão do asfalto vinha logo atrás de mim. Muitas vezes respirei aquele ar quente que vinha do asfalto, que queimava meus pés.”
Primeiros guetos
Da entrada dos alemães na cidade à formação dos primeiros guetos também foi um passo rápido. Bunia e a família tiveram de deixar o conforto do lar, foram levados para um bairro murado e receberam como moradia uma varanda que era um puxadinho com teto de vidro, muito mais propício para o verão do que para o rigoroso inverno da Polônia. O medo só aumentava. “Meu pai dizia: ‘Isso não vai ser para sempre. Vai haver matança, temos de nos salvar.’” O pai dela tinha alguns amigos tchecos e foi às escondidas até a casa de um deles para pedir ajuda. Na volta, a mãe da garota olhou para ela e deu a ordem: “pegue três vestidos, um suéter e um casaco”. Era hora de fugir. Lá se foram o pai, a mãe, Bunia, a irmã e o irmão.
O pai e a mãe ajudaram na fuga, mas permaneceriam no gueto porque trabalhavam na estação ferroviária e, como tinham documento para esse trabalho, poderiam ficar. Ela e a irmã fugiram para um lado e o irmão para outro. Ele acabou preso. “Tinha uma prima que era tradutora da polícia. Ela foi tentar salvá-lo, mas o comandante disse que, se soltasse meu irmão, teria de fazer o mesmo com os outros.” O irmão de Bunia não se salvou. Aliás, dos 3 mil judeus que viviam naquela cidade, apenas 54 saíram vivos.
Na casa dos tchecos, Bunia e a irmã tiveram de trabalhar na plantação de trigo e centeio, ordenhar as vacas, amarrar os feixes de trigo. “Tinha de andar descalça naquele campo onde era cortado o trigo. Os tocos entravam nos nossos pés e nos cortavam a carne.”
Logo o pai se juntou às filhas na fazenda. A mãe ainda acreditava em um milagre e ficou mais tempo no gueto. Certo dia saiu para rezar às escondidas, foi reconhecida e levou uma grande surra dos alemães. Foram dois dias de recuperação e a certeza de que era preciso fugir com a família. Alguns dias depois, também apareceram na fazenda os tios de Bunia.
Os boatos corriam soltos. E um deles era o pior de todos. Ouviram falar que alguns tchecos estavam entregando os judeus à polícia alemã em troca de dinheiro. O medo aumentou e eles fugiram para o bosque e, depois, para a fazenda de um amigo do pai da garota.
Buraco
O novo esconderijo era ao lado do chiqueiro de porcos. Foi ca­­vado um buraco onde eles conseguiam ficar de joelhos. Esta seria a moradia. Das frestas do chiqueiro, eles conseguiam monitorar quem entrava e saia da fazenda. Às vezes, às escondidas, saíam, porém o mais seguro era ficar no buraco. “Um dia apareceram os alemães e eles chegaram até o chiqueiro. Mas a porca, – olhe que abençoada –, deitou na tábua que dava acesso ao buraco e não se levantou. Os policiais deram pontapés nela, e ela nada. Imagine a nossa aflição. Eles foram embora. Eu me pergunto: no que podemos acreditar? Que Deus existe? Que aquilo foi sorte? Ou as duas coisas juntas?” Depois vieram outros policiais. Ficaram três dias e três noites. A tcheca não podia dar nem comida nem água para eles. “Quando as carroças foram embora, eu estava quase desmaiando de sede. Tinha nevado e meu pai me arrastou para fora e disse para eu lamber o chão”.
Outro susto passou Bunia quando fazia a vigia pelas frestas do chiqueiro enquanto os outros dormiam. Um homem chegou perto da tábua e disse que era para chamar o pai dela. “Eu quase morri. Ele dizia: ‘Sei que vocês estão escondidos’.” O homem ameaçou: “ou vocês me deixam ficar aqui ou conto tudo para a polícia”. Eles passaram a ser 12 no buraco. Ali, desde o início, conviveram com os piolhos das palhas que ficavam depositadas ao lado do chiqueiro. Bunia conta que os ratos passavam entre os cabelos enquanto estava deitada, por isso todas as mulheres adotaram o corte militar.
A tcheca dava de comer a eles duas vezes ao dia: no almoço água quente e um pão fatiado em 12 pedaços milimetricamente iguais. E, à noite, uma sopa. “Quando a fome apertava muito, roubávamos as batatas cozidas que ela jogava aos porcos, em panelões”, relata. O remédio contra a loucura mental era politicar. Eles ficavam imaginando o que aconteceria aos alemães. Ali viveram 495 dias marcados pelo pai de Bunia, dia a dia, com traços em um papel.
Foi em uma visita de alguns partisans (grupos revolu­­cionários) à fazenda, para pedir comida, que os 12 souberam pela tcheca que os alemães estavam recuando e se afastando da cidade. Enfim, os tiroteios começaram a cessar e, depois de mais um dia no buraco para ter certeza de que eles poderiam sair com segurança, os partisans apareceram outra vez e avisaram que estava seguro. A liberdade havia chegado outra vez. A mãe de Bunia en­­trou no buraco com 85 quilos e saiu com 45. “Ela não conseguia nem mesmo enxergar direito. Tivemos de cuidar muito dela.” Dali, seguiram a pé para a casa onde moravam. Se depararam com a residência ocupada por outra família que não lhes deixou entrar e sequer pegar algumas roupas. Já não era mais seguro viver na Polônia, pois os alemães ainda estavam por ali. Decidiram ir à Itália e depois vir ao Brasil. Bunia encerra a conversa. “Fico muito cansada de falar sobre isso.”
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